8 de out. de 2008

Desenho e Projeto






















esboço de Santiago Calatrava para o edifício turning torso

por Marcelo Ferraz

Em arquitetura, dizer que o desenho é tudo é uma meia verdade, ou até verdade nenhuma. Em arquitetura, arquitetura é tudo. Se entendermos arquitetura como uma experiência do espaço no tempo vivida com todos os sentidos, será difícil, ou mesmo impossível, substituir sua linguagem própria de expressão - a da percepção tridimensional do espaço -, por qualquer outra linguagem. A fotografia, a escrita e as várias formas de desenho - do mais livre e expressivo croqui ao mais técnico – não conseguem representar a arquitetura em sua totalidade sensorial. Nessa experiência, tudo conta: fruição, observação, reflexão, filtrados pela bagagem cultural de cada um.
Dito assim, onde é que fica o desenho, essa ancestral linguagem da expressão humana? Não é importante no fazer arquitetônico? Claro que sim. Ainda hoje o desenho é uma das principais ferramentas da arquitetura e, em muitos momentos, se confunde com a própria arquitetura, tal a proximidade da linguagem meio – o desenho, com a linguagem fim – a arquitetura.
Seguidamente, nos utilizamos da palavra desenho para nos referirmos ao projeto, sem pensar que projeto é muito mais que desenho. Projetar é ver adiante, enxergar à frente algo que poderá ou não ser concretizado. Ao projetar, podemos recorrer a várias linguagens, como o desenho, a escrita, a fotografia, esculturas (maquetes), sons, falas, etc. Mas em nossos dias, o desenho como linguagem, ainda é fundamental na prática arquitetônica, seja em sua concepção, seja em sua expressão. Não podemos prever até quando será assim, com tantas inovações que surgem todos os dias no campo da comunicação.
O que podemos afirmar é que, hoje, o desenho é parte integrante do fazer arquitetônico e também que o termo ‘desenho’ não tem uma aplicação precisa no campo da arquitetura. Quando o arquiteto português Álvaro Siza diz que “o desenho é a procura da inteligência”, ele está se referindo ao desenho enquanto projeto. E aí a confusão do uso dos termos continua armada. Mas o desenho enquanto projeto, tomado como forma prospectiva e propositiva a um só tempo, é uma das chaves para se compreender o que é fazer arquitetura. Em uma atividade única, que em geral é o ato de desenhar, o arquiteto observa, faz anotações, registra a natureza ou o lugar da intervenção, sua geografia, e ao mesmo tempo a transforma, também com desenhos. Muda, altera a realidade hipotética, agrega novos elementos e disso, desse ato uno e multifacetado, surge a arquitetura. Fazemos o desenho para apreender o lugar e para transformá-lo. Na medida em que estamos construindo o lugar, estamos construindo o projeto, tudo ao mesmo tempo. Em ato único de criação, utilizamos o desenho (design, projeto) como meio de percepção - forma de conhecer, e de expressão - forma de conhecimento.
Quando ouvimos alguém dizer, “já tenho a idéia, agora só falta o desenho (projeto)”, podemos concluir que falta tudo. Entre a idéia e o projeto há o abismo da indefinição do que virá. Infindáveis desenhos poderão dar infindáveis formas (e conteúdos) a uma idéia arquitetônica. Um mesmo programa, ou uma mesma demanda espacial poderá gerar projetos tão distintos e diversos como diferentes são as cabeças de cada arquiteto. É só tomarmos como exemplo os resultados de concursos arquitetônicos, em que são apresentados projetos radicalmente opostos para atenderem a um mesmo tema ou propósito.
O uso reducionista do conceito de projeto tem sido responsável por muitos desastres em nossas cidades, em nossas casas, na maneira com que nos relacionamos com os nossos objetos, enfim com nosso “habitat”. Tomar os espaços da vida e objetos de nosso dia a dia sem seu devido sentido estético e cultural ou, como diria Darcy Ribeiro, “sem ressonância em nosso coração”, é praticar arquitetura (e design) em bases falsas, com propósitos escusos. Nossas cidades e nossas casas estão aí, cheias de absurdos e de desconfortos criados pelo modo de vida de nossos dias, ditados pelo tempo de modismos e aparências acima de tudo em que estamos imersos.
Em arquitetura, porém, o tempo é outro. Busca-se sempre (assim é e foi em toda a história da humanidade) a longa vida, a durabilidade, a perenidade e até a eternidade. E isso não é pretensão. Mesmo sabendo que toda obra pode ser demolida, reformada, alterada, etc, o arquiteto, quando projeta, projeta para uma vida longa, onde não se vê um fim. E também não é pretensão dizer que o arquiteto “desenha” o mundo. Mundinho ou mundão, não importa. O espaço envolvente, “recipiente da existência”, é sempre um pedaço de mundo.
Assim, o verdadeiro desenho em arquitetura é aquele que seleciona, organiza, constrói integra partes e produz totalidades (e mesmo pequenos objetos são totalidades). Costumamos dizer corriqueiramente: “esse copo tem bom desenho” ou “essa cadeira tem bom desenho”, etc. Estamos nos referindo a uma totalidade em que forma e função respondem conjuntamente a uma demanda, externam claramente um sentido, uma razão de ser. São bons projetos, com lógicas próprias a serem vivenciadas em seus valores éticos e estéticos.
Artigo publicado no livro Disegno. Desenho. Desígnio, Ed. Senac São Paulo, 2007 (p.221-228)

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